É uma ilha em forma de cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água. O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias de vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar. O cão está sentado no Atlântico.
Herberto Helder, Photomaton & Vox
[...] E a saudade É uma espera É uma aflição Se é Primavera É um fim de Outono Um tempo morno É quase Verão Em pleno Inverno É um abandono [...] Porque não me vês, Fausto
A simplicidade de uma mulher invisual que durante anos cantou nas ruas de Lisboa para os transeuntes e ao mesmo tempo pedia esmola para sobreviver, até que um produtor musical austríaco parou diante desta senhora e ouviu a alma que emanava a sua voz. Hoje é conhecida por toda a Europa (como as cantoras, Dulce Pontes, Teresa Salgueiro, Mísia e Mariza), e, ironicamente, quase passa despercebida no seu próprio país.
Estes vêm feros E amotinados Aqueles andam bravos Muito acossados
Esses são mais grossos Em algazarras Os outros mais tamanhos E estendem as garras
Os bandarras (Os bandidos) Os baptizados (Os babuínos) Os levantados (Os saladinos) Todos provocam malditos aos gritos
E há um rapino de pulo Escaramuçam larápios (Combatem o combate) (Sobre a terra, sobre os céus) Todos acodem a uma Mozumbos, cafres e arábios (Pega, não pega) (Pelas almas, pelos céus)
Os sem lei nem costumes Mostram as partes traseiras (Combatem o combate) (Sobre a terra, sobre os céus) E tanta gente responde Mostram-te as partes grosseiras (Pega, não pega) (Pelas almas, pelos céus)
Andam em roubos E desnudam os que vão derradeiros (Combatem o combate) (Sobre a terra, sobre os céus) Dão de focinhos no chão Dados por golpes rasteiros (Pega, não pega) (Pelas almas, pelos céus)
Vivendo muitas vidas na vida Hão-de viver como Soldados de Baco na terra Nunca a paz é a paz Toda enfeitada de guerra (Enfeitada) Como um qualquer Deus Toda enfeitada de breu
Estes saltam brutos Como bugias Aqueles fazem Cruas carniçarias
Esses muito indígenas E carniceiros Os outros sanguinários Muito estrangeiros
Os quadrilheiros (Os destemidos) Os apossados (Os perseguidos) Os vergastados (Os carcomidos) Todos em sangue lavados aos brados
E alguns dão santiago Dão nos bons e nos maus (Matas) (Mato, valha-nos nosso senhor) E todos enchem o ar O céu de pedras e paus (Mata e esfola) (Misericórdia senhor)
Uns varados dos peitos Do espinhaço à outra parte (Matas) (Mato, valha-nos nosso senhor) Tantas cabeças ao talho À força dos bacamartes (Mata e esfola) (Misericórdia senhor)
Vão fustigados, os braços As pernas e outros lugares (Matas) (Mato, valha-nos nosso senhor) Estão nos contrários uivando Golpes mortais aos milhares (Mata e esfola) (Misericórdia senhor)
Morrem de muitas mortes e à morte Hão-de morrer como Soldados de Baco na terra Nunca a paz é a paz Toda enfeitada de guerra (Enfeitada) Como um qualquer Deus Toda enfeitada...
E alguns afrouxam calados Cortados pelas gargantas (Matas) (Mato, valha-nos nosso senhor) Todos vomitam de si Chuvas de setas e lanças (Mata e esfola) (Misericórdia senhor)
Uns vão de craneos abertos Com as medulas de fora (Matas) (Mato, valha-nos nosso senhor) Tantas ossadas e carnes Que a lama engole e devora (Mata e esfola) (Misericórdia senhor)
Morrem mortos de muitas mortes E à morte Hão-de morrer como Soldados de Baco na terra Nunca a paz é a paz Toda enfeitada de guerra (Enfeitada) Como um qualquer Deus Toda enfeitada de breu Toda enfeitada de breu
Fausto, album Crónicas da Terra Ardente
Oiço e lembro-me de uma guerra colonial onde alguns Soldados de Baco voltaram para si mesmos e vagueiam pelas cidades deste país com o pensamento naquilo que fizeram além mar...
Cá estou eu de novo a falar sobre Coimbra. Não, não é para criticar a sua universidade.Paz à sua alma que jaz perdida por entre as vielas e medinas próximas do rio Mondego. Este post é dedicado ao que de melhor se faz nesta cidade em termos musicais. Não, não vou falar sobre o fado de Coimbra, que, actualmente, é o mesmo desde que existiu, tirando as inovações introduzidas por Menano, Betencout, José Afonso e Luis Goes. Os actuais cantores e compositores não conseguem sair do quadrado musical formado por estes e repetem até à exaustão fórmulas já antes vistas e cantadas, sem um cheiro de inovação ou de arrojo interpretativo. Muitos dizem que é impossível romper com as matrizes fixadas na pedra da canção de Coimbra. Muitos disseram o mesmo em relação ao fado de Lisboa e vê-se como nos últimos temos este evoluiu consideravelmente, com novos intérpretes e novas melodias bem afadistadas. Venho aqui falar de um grupo nascido em Coimbra que tudo fez para preservar a essência da música tradicional portuguesa - a Brigada Victor Jara. Nascidos com o intuito de louvar o tão conhecido cantor chileno assassinado pelas falanges de Pinochet, depressa tomaram conta do panorama musical português ao incutir simplicidade e veracidade à música popular portuguesa. Esta sim a verdadeira música nacional que se canta um pouco por todo o território continental e ilhas e não o fado (seja ele de que lugar for) que durante anos tentaram colar tal rótulo, esquecendo as chulas, os charambas e canas verdes, os corridinhos e o tão genuíno canto chão. Não sei o que se passou na década de 80 do século passado, pois nessa época toda a música tradicional era mal vista, deixada de lado e envergonhava o país e a quem a ouvia. Meus senhores, uma coisa é certa. Retirem da vossa órbita os rachos folclóricos feitos a régua e esquadro por pseudo-ideólogos do Estado Novo, e vejam como flui a verdadeira música tradicional, muita dela recolhida por Lopes Graça e Michel Giacometti nos anos de 50 e 60. Oiçam a Brigada Victor Jara, que recriam o melhor da nossa música que se encontra nos poros de qualquer português, parte integrante do nosso sentido de pertença.
É-me muito difícil escrever sobre este cantautor. Talvez porque a partir dele iniciei a minha procura por diferentes universos musicais, em que a transparência, a veracidade e o sentimento estivessem sempre presentes. Não sei quando o conheci, penso que as suas melodias estiveram presentes na minha família nuclear, principalmente pela voz e sensibilidade musical da minha mãe, e, deste berço primacial, parti em busca de um mundo sonoro de diferentes tonalidades pelos quatro cantos do mundo.
Imagem: Domingo de Um Pescador em Câmara de Lobos de Jean Dieuzaide(1956)
Aqui, valter hugo mae (escritor de excepcional qualidade, leiam o seu apocalipse dos trabalhadores) fala sobre Câmara de Lobos, a minha terra natal - onde cimentei a minha identidade vincada por uma baía de pescadores e pelas serranias de casas dispersas -, elogiando a sua nouvelle vague arquitectónica que responde aos preceitos estéticos de enquadramento paisagístico. À excepção de um parque de estacionamento na Praça da República (nome que predomina, embora a edilidade camarária quisesse modificar a toponímia por Praça da Autonomia), que tapou a vista que tínhamos do Cabo Girão, no percurso que vai da porta da igreja até à Praça, os novos edifícios são de salutar pela beleza das linhas sóbrias e pela sua funcionalidade. O Ilhéu - local onde andei no jardim de infância, na escola primária e onde morou os meus avós maternos - desenha-se agora como um verdadeiro jardim suspenso no mar, com a encosta recortada por casas recuperadas. Não é de agora que Câmara de Lobos impressiona pela sua beleza física. Mas, devo confessar que a sua face real, a sua beleza intrínseca, essa ainda está por explorar e mostrar ao mundo as verdadeiras cores da sua identidade. Falo no seu povo - claro - que durante muitos anos, digo mesmo séculos, foi escondido, posto de parte, visto por muitos insulares e continentais como a mancha negra da ditosa e epitetada Pérola do Atlântico. Povo diferente dos demais conterrâneos, com outros sentidos de pertença, cuja vida se debruça no impulso e na felicidade momentânea, com religiosidade bem vincada, embora na prática (no dia-a-dia) seja um pagão festivo. Estas são características que nunca vi serem enaltecidas, demonstradas, espelhadas em estudos de diferentes índoles ou então na literatura. E o povo não espera, esvai-se aos poucos o seu sentido matricial, voltando-se assim para novos sentidos, mais funchalenses, estes sempre aceites por la movida do concelho-mor e da pseudo-intelectualidade madeirense, que viu e vê em Câmara de Lobos um ser menor, pobre, bêbedo, drogado e desbocado. Quem me dera ter metade do talento de um Gabriel Garcia Marques, pois material para o meu Cem Anos de Solidão câmaralobense não faltaria com certeza. Mas o tempo passa e a inspiração nunca veio, nem nunca chegará....