É uma ilha em forma de cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água. O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias de vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar. O cão está sentado no Atlântico. Herberto Helder, Photomaton & Vox
sábado, 23 de junho de 2007
Bruckner Zen
Eis um excerto do segundo andamento da 7ª sinfonia de A. Bruckner, dirigida pelo maestro Abbado. Ainda não me esqueci da versão do mago Celibidache (mais lenta e transparente), mas recomendo esta pelo seu lirismo à flor da pele.
Meu amigos... Eu já voei ao som desta obra... sim, voei! Acordei e pensei que tinha superado o sofrimento. Levantei-me e abri as portadas da janela do meu quarto... olhei por cima da cidade e vi que o meu nirvana não modificou a sua cadência... os transeuntes desconexos subiam as ruas carregados de sacos pensativos... o sofrimento voltou... só verdadeiramente o conseguirei ultrapassar quando, num movimento colectivo, conseguirmos atingir o corte com a vida anterior e assim poderemos nos elevar até à morada da felicidade... Utopias... eu sei. Até lá, não me resigno! Procurarei uma ínfima parte da minha profecia nos sons ciclicos das sinfonias de Bruckner.
Até à eternidade...
quinta-feira, 21 de junho de 2007
As Transmutações
(as transmutações)
Escultura: objecto
Objectos para a criação de espaços. Espelhos para a criação de imagens. Pessoas para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de espelhos para a criação de pessoas para a criação de espaço para a criação de imagens para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de silêncio.
Herberto Hélder, Photomaton & Vox.
Escultura: objecto
Objectos para a criação de espaços. Espelhos para a criação de imagens. Pessoas para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de espelhos para a criação de pessoas para a criação de espaço para a criação de imagens para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de silêncio.
Herberto Hélder, Photomaton & Vox.
domingo, 17 de junho de 2007
Lua Nha Testemunha [letra e música]
Bô
Cata pensá nhá cretcheu
Ni bô cata imaginá,
c'ma longe di bô mi tem sofrido
Perguntá luá na ceu,
lua nha companheira... di solidão
Lua
Vagabunda di espaço
Qui contche tudo nha vida
E na desventura
El, qui tá contábu nha cretcheu
Tudo qui tem sofrido
Na ausência e na distância
Mundo...
Bô tên rolado cum mim
Nun jogo di cabra cega
Semp ta perseguirme
Pa, cada volta qui mundo dá,
El tá traze-me un dor
Pra me tchegar mas, pa Deus
Lua minha testemunha...A deusa do Ébano canta um dos poemas jucosos dos dez cães mais melómanos que conheço. Ouvindo este português adocicado pelo sol, eles não estão estáticos. Balançam oivando ao luar, levados pelas rítmicas mornas e ondas do Atlântico.
sábado, 16 de junho de 2007
Imagem com gente dentro [9]

Sé do Funchal [a primeira Sé portuguesa a ser construida fora do Reino], algures na década 40.
O cão esteve com pulgas e carraças... coçou-se até mais não e ficou em ferida... Essa solidificou-se em tempos e em pedra... e a crosta jamais saiu do seu corpo. As pulgas e carraças já não mordem. Submetem-se ao terror escatológico do edifício matricial...
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Apelo à minha consciência [4]
Somos a memória que temos e a responsabilidade
que assumimos, sem memória não existimos, sem
responsabilidade talvez não mereçamos existir.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, vol. II.
que assumimos, sem memória não existimos, sem
responsabilidade talvez não mereçamos existir.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, vol. II.
domingo, 10 de junho de 2007
Café con libros [1]
Este é o título de um curioso programa da televisão regional das Astúrias que tem como objectivo dar a conhecer os autores da literatura mundial.
Sobre a portuguesa foram já realizados quatro programas!!!
Começaremos este ciclo por Miguel Torga...
Sobre a portuguesa foram já realizados quatro programas!!!
Começaremos este ciclo por Miguel Torga...
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Imagem com gente dentro [8]

Chegada de um vapor à Baía da cidade do Funchal. Criança empoleirada numa canoa,s/d.
É do mar que melhor se olha a grandeza daquele espécime canino.
No clamor luzidio das suas águas navegam cidades em plataformas gigantes dos países que eu, em jovem, acenei.
Com o mar um dia partirei. Fugirei destes carunchosos desmazelos e dos ardores incómodos de vida (encontrarei outros? certamente...).
Se voltar, não sei se virei pelo mar...
Se voltar vou querer olhá-lo, guardando em mim todos os anos da sua ausência.
Entrementes, não me resigno... Esperarei atento as sirenes do temporário abandono.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Dedicatória
Para M.
Händel, "Io t'abbraccio", ópera Rodelinda.
Intérpretes: Andreas Scholl & Anna Caterina Antonacci
Apelo à minha consciência [3]
Dá-me uma ajuda, ó médico das almas
para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer
Encostado à árvore do tempo
Folhas mortas, folhas vivas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido
Não paga as refeições
Este torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobra
Ao fazer-se, o mundo nasce de si próprio
Ser avô é uma alegria atravessada
Dá p'ra rir e p'ra chorar
Não temos nada com isso
E o nada não é nada
Disseste um dia que tudo vale a pena
Tornar as almas mais pequenas é que não
Vamos sobre duas patas
Juntar as partes da antena
Espalhadas pelo chão
Fecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo aos despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugi
O tempo corre por entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá
Emigrantes da quarta geração (carta a J.C.), José Mário Branco
para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer
Encostado à árvore do tempo
Folhas mortas, folhas vivas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido
Não paga as refeições
Este torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobra
Ao fazer-se, o mundo nasce de si próprio
Ser avô é uma alegria atravessada
Dá p'ra rir e p'ra chorar
Não temos nada com isso
E o nada não é nada
Disseste um dia que tudo vale a pena
Tornar as almas mais pequenas é que não
Vamos sobre duas patas
Juntar as partes da antena
Espalhadas pelo chão
Fecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo aos despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugi
O tempo corre por entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá
Emigrantes da quarta geração (carta a J.C.), José Mário Branco
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