É uma ilha em forma de cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água. O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias de vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar. O cão está sentado no Atlântico. Herberto Helder, Photomaton & Vox
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Foguete
Foguete Cantada pela diva Maria Betânia e seu irmão Caetano Veloso, junto com a sua mãe dona Canô
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Sobre Câmara de Lobos

Imagem: Domingo de Um Pescador em Câmara de Lobos de Jean Dieuzaide(1956)
Aqui, valter hugo mae (escritor de excepcional qualidade, leiam o seu apocalipse dos trabalhadores) fala sobre Câmara de Lobos, a minha terra natal - onde cimentei a minha identidade vincada por uma baía de pescadores e pelas serranias de casas dispersas -, elogiando a sua nouvelle vague arquitectónica que responde aos preceitos estéticos de enquadramento paisagístico. À excepção de um parque de estacionamento na Praça da República (nome que predomina, embora a edilidade camarária quisesse modificar a toponímia por Praça da Autonomia), que tapou a vista que tínhamos do Cabo Girão, no percurso que vai da porta da igreja até à Praça, os novos edifícios são de salutar pela beleza das linhas sóbrias e pela sua funcionalidade. O Ilhéu - local onde andei no jardim de infância, na escola primária e onde morou os meus avós maternos - desenha-se agora como um verdadeiro jardim suspenso no mar, com a encosta recortada por casas recuperadas.
Não é de agora que Câmara de Lobos impressiona pela sua beleza física. Mas, devo confessar que a sua face real, a sua beleza intrínseca, essa ainda está por explorar e mostrar ao mundo as verdadeiras cores da sua identidade. Falo no seu povo - claro - que durante muitos anos, digo mesmo séculos, foi escondido, posto de parte, visto por muitos insulares e continentais como a mancha negra da ditosa e epitetada Pérola do Atlântico.
Povo diferente dos demais conterrâneos, com outros sentidos de pertença, cuja vida se debruça no impulso e na felicidade momentânea, com religiosidade bem vincada, embora na prática (no dia-a-dia) seja um pagão festivo.
Estas são características que nunca vi serem enaltecidas, demonstradas, espelhadas em estudos de diferentes índoles ou então na literatura.
E o povo não espera, esvai-se aos poucos o seu sentido matricial, voltando-se assim para novos sentidos, mais funchalenses, estes sempre aceites por la movida do concelho-mor e da pseudo-intelectualidade madeirense, que viu e vê em Câmara de Lobos um ser menor, pobre, bêbedo, drogado e desbocado.
Quem me dera ter metade do talento de um Gabriel Garcia Marques, pois material para o meu Cem Anos de Solidão câmaralobense não faltaria com certeza. Mas o tempo passa e a inspiração nunca veio, nem nunca chegará....
domingo, 27 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
A Nova-Brigada-dos-Coronéis-de-Lápis-Azul
I
nós somos
a Nova-Brigada-dos-Coronéis-de-Lápis-Azul
perfilada em novos quartéis
fazemos o cadastro
toda a folha do artista
se de mau cantor não passa
o péssimo vocalista
II
nós somos
a Nova-Brigada-dos-Coronéis-de-Lápis-Azul
perfilada em novos quartéis
aguçada na ponta
que mais risca esses papéis
escritos pelos "contras"
contra a lei dos bacharéis
e se a censura aviva
a morte do criador
banido da pantalha
cedo morre esse cantor
e calado na rádio
apagado nos jornais
vai-se à vida a voz canora
há-de morrer um pouco mais
III
e um pouco mais há-de morrer
há-de morrer ainda
se lhe arrojarmos à cabeça
um prémio desta maneira
vai ele direito à carreta
e de ventas às torneiras
e não serão decretados
três dias de luto a mais
mas um só dia de fados
de alegrias nacionais
Fausto
Eles andam por aí.
nós somos
a Nova-Brigada-dos-Coronéis-de-Lápis-Azul
perfilada em novos quartéis
fazemos o cadastro
toda a folha do artista
se de mau cantor não passa
o péssimo vocalista
II
nós somos
a Nova-Brigada-dos-Coronéis-de-Lápis-Azul
perfilada em novos quartéis
aguçada na ponta
que mais risca esses papéis
escritos pelos "contras"
contra a lei dos bacharéis
e se a censura aviva
a morte do criador
banido da pantalha
cedo morre esse cantor
e calado na rádio
apagado nos jornais
vai-se à vida a voz canora
há-de morrer um pouco mais
III
e um pouco mais há-de morrer
há-de morrer ainda
se lhe arrojarmos à cabeça
um prémio desta maneira
vai ele direito à carreta
e de ventas às torneiras
e não serão decretados
três dias de luto a mais
mas um só dia de fados
de alegrias nacionais
Fausto
Eles andam por aí.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
um momento de publicidade
Apesar das ruínas e da morte
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen(1944)
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen(1944)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Como um sonho acordado
Fernão Mendes Pinto, Peregrinação: "Embarcado num jurupango, com o Mouro Coja Ale, feitor do capitão de Malaca, fomos surgir no rio de Parles no Reino de Quedá. Nesse tempo, estava o rei celebrando com grande aparato e pompa fúnebre as exéquias da morte de seu pai, que ele matara às punhaladas para casar com a sua mãe que já estava prenhe dele. Para evitar murmurações mandou lançar pregão que sob gravíssimas mortes ninguém falasse no que já era feito. Mas Coja Ale era de sua natureza solto de língua e muito atrevido em falar o que lhe vinha à sua vontade. E foi assim que preso por soldados fui chamado ao rei e olhando para onde ele me acenava, vi jazer de bruços no chão muitos corpos mortos todos metidos num charco de sangue. Entre eles o mouro Coja Ale. Por mais de uma grande hora estive como pasmado, debaixo de abano, sem poder falar, arremessado aos pés do elefante em que el-rei estava. Depois de perdoado pelas lamentações e desculpas toscas, mas que vinham ao momento muito a propósito, me fiz à vela muito depressa pelo grande medo e risco de morte em que me vira".
Fausto, Como um sonho acordado (album por este rio acima):
Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá no fundo
Tenho medo ó medo
Leva tudo é tudo teu
Mas deixa-me ir
Arrasta-me à côncava do fundo
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante
Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda
Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p'lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes
Fausto, Como um sonho acordado (album por este rio acima):
Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá no fundo
Tenho medo ó medo
Leva tudo é tudo teu
Mas deixa-me ir
Arrasta-me à côncava do fundo
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante
Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda
Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p'lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes
grande grande é a viagem (concerto 1990)
Deixo também aqui um concerto do Mago Fausto. A música portuguesa em plena sedução.
Canto dos torna viagens
Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar
Pátria moratória
No coração da história
Que consumiste a glória
Num jantar
Foi como se Portugal
P'ra bem e p'ra seu mal
Andasse em busca dum final
P'ra começar
Ávida violência
Reverso da inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar
Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão
Pátria imaginária
De concistência vária
Afirmação diária
Do teu não
As malas do portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão
Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá estão
Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p'ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo que eu já não estou
aqui
Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais- Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou
Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p'ra lá vem e p'ra cá vai
Etecetera e tal, portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar
Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer
Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá
Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou
Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p'ra eles e p'ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?
Não é culpa nossa se quem p'ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A história não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem fôr
José Mário Branco.
Um verdadeiro tratado sobre portuguezinhos descobrimentos e a sua consequente descolonização.
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar
Pátria moratória
No coração da história
Que consumiste a glória
Num jantar
Foi como se Portugal
P'ra bem e p'ra seu mal
Andasse em busca dum final
P'ra começar
Ávida violência
Reverso da inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar
Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão
Pátria imaginária
De concistência vária
Afirmação diária
Do teu não
As malas do portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão
Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá estão
Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p'ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo que eu já não estou
aqui
Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais- Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou
Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p'ra lá vem e p'ra cá vai
Etecetera e tal, portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar
Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer
Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá
Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou
Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p'ra eles e p'ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?
Não é culpa nossa se quem p'ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A história não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem fôr
José Mário Branco.
Um verdadeiro tratado sobre portuguezinhos descobrimentos e a sua consequente descolonização.
Resistir é vencer (o concerto)
Encontrei o concerto de José Mário Branco do Álbum resistir é vencer. Não resisto a postar aqui um mega momento de alguém de quem admiro como pessoa, como cantor e como orquestrador.
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