É uma ilha em forma de cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água. O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias de vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar. O cão está sentado no Atlântico.
Herberto Helder, Photomaton & Vox
Barcos xavelhas, canoas, linhas, velas, Homens... Câmara de Lobos: Conjugação do jugo matricial, da âncora que não se desfaz mesmo depois de muitos anos. Sentido(s) de pertença...
Câmara de Lobos: Tenho comigo a mágua de te terem reduzído a uma simples carraça do cão sentado.
Pelo sorriso directo e espontâneo que os teus dão à vida...
Um dos compositores contemporâneos da minha preferência é, sem dúvida, Arvo Part. Há quem não goste da sua lógica minimalista e insinue que esta pouco cria mais do que transes místicas, de shivas e afins (cristianizados pois claro!!!)e pozinhos de perlim pim pim...
Peço somente a esses que, numa ânsia desesperada, catalogam tudo
(sim eu sei, eu sou o dono do mundo, eu é que sei porque eu percebo e faço aquilo e isto e não sei se me está a compreender, ai não?)
para tentar compreender o mundo em que vivemos... procurem primeiro despojar a alma de todos os elementos sonoros ulteriores e oiçam como se fosse pela primeira vez, um qualquer excerto de Part.
Talvez seja pedir muito... eu sei. Oiçam então as primeiras obras em escrita dodecafónica... aí já gostam... não é?
Olha deixaste cair a chaves do carro. (FMI, José Mário Branco)
Está bem... Pronto. Já parei.
Deparei-me com este achado no You Tube e quis partilhar comigo e com os poucos que conhecem este enderreço de diarreia mental
Jota pimenta 4 Ever (FMI, José Mário Branco)
Gosto...
Por isso estou fora...SHIVAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA~~~~~~~~~~
És tão provinciano (frase dirigida à minha pessoa por um professor catarático da FLUC, um dos antros ecléticos da mamã dos bacharéis)
Quando acabo de ler um livro que gosto, procuro, logo de seguida, toda a obra do autor em questão e inicio uma leitura desenfreada dos seus romances, contos, poemas e diários.
Acham isto sadio?
Depois do ciclo Herberto Helder, José Saramago, Miguel Torga, entrei na escrita de Lobo Antunes e não consigo parar...
No momento em que os seus joelhos se afastarem docemente, os cotovelos me apertarem as costelas, e o seu púbis ruivo descerrar as pétalas carnudas numa húmida entrega de valvas quentes e macias, penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus, porque o tipo de Mangando e todos os tipos de Mangando e Marimbanguengo e Cessa e Mussuma e Ninda e Chiúme se erguerão no interior de mim nos seus caixões de chumbo, envoltos em ligaduras sangrentas que esvoaçam, exigindo-me, nos resignados lamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o grito de revolta que esperavam de mim e a insubmissão contra os senhores da guerra de Lisboa, os que nos quartel do Carmo se cagavam e choravam vergonhosamente, tontos de pânico, no dia da sua miserável derrota, perante o mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuoso canto, como o Tejo, as árvores magras do Largo. (...) Não era o rancho que estava em causa, percebe, todos comíamos o mesmo alimento turvo, quase podre, que as crianças da sanzala, munidas de latas ferrugentas, desejavam com grandes órbitas côncavas de fome penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, a cabronice da guerra, os calendários imóveis em intermináveis dias, fundos como os tristes e suaves sorrisos das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos camaradas assassinados que rondavam as casernas à noite conversando conosco na pálida voz amarela dos defuntos, fitando-nos com as pupilas magoadas e acusadoras dos esqueléticos cães vadios do quartel. Os soldados acreditavam em mim, viam-me trabalhar na enfermaria os seus corpos esquartejados pelas minas, viam-me à beira dos beliches se tiritavam de paludismo nos lençóis desfeitos, de modo que, sabe como é, me cuidavam um deles, pronto a encabeçar a sua zanga e o seu protesto, assistiram à minha entrada na caserna onde um homem se trancara brandindo uma catana e ameaçando matar toda a gente e a si próprio, e viram-me sair com ele, momentos depois, a soluçar no meu ombro abandonos de bebé disforme, os soldados julgavam-me capaz de os acompanhar e de lutar por eles, de me unir ao seu ingênuo ódio contra os senhores de Lisboa que disparavam sobre nós as balas envenenadas dos seus discursos patrióticos, e assistiram enojados à minha passividade imóvel, aos meus braços pendentes, à minha ausência de combatividade e de coragem, à minha pobre conformação de prisioneiro.
Vamos lá acabar com isto... Já não consigo olhar para a minha memória destes últimos dois anos sem me deparar com esta imagem... os espaços não são meus, mas fazem parte integrante da minha missão e ela terá um termo em breve, muito em breve. Tenho que avançar com a vida e procurar um outro objectivo. Sair da depressão que afecta a capacidade realizadora e terminar o que já há muito deveria estar terminado. A alma de quatro paredes históricas contendo, agrupados em diversos continentes artísticos, antanhos de ultrora que não pertencem à minha identidade matricial, sairá de vez da minha mente. Abrirei de novo um alçapão para a felicidade... Viver Duarte Viver... diz uma das minhas vozes interiores. Sim eu seguirei, viverei, afinal se não foi desta paragem que o futuro encerra, terminemos então o objectivo. Fecharemos a porta depois de completar a escrita e arguir um dado pesado de pretéritos e caminhemos a diante... Eis um novo espaço.Um caminho uma nova paragem...
“O acto sexual é para ter filhos” - disse ele Um poema de Natália Correia a João Morgado
Já que o coito- diz Morgado- Tem como fim cristalino, Preciso e imaculado Fazer menina ou menino; E cada vez que o varão Sexual petisco manduca, Temos na procriação Prova de que houve truca- truca. Sendo pai de um só rebento, Lógica é a conclusão De que viril instrumento Só usou – parca ração!- Uma vez. E se a função Faz o ógão – diz o ditado – Consumada essa excepção, Ficou capado o Morgado.
Um poema declamado por Natália Correia (no seu papel de deputada do PRD) na Assembleia da República (dia 3-4-1982) em honra às estas declarações de João Morgado (CDS): O acto sexual só é legítimo tendo em vista a procriação.