É uma ilha em forma de cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água. O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias de vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar. O cão está sentado no Atlântico.
Herberto Helder, Photomaton & Vox
Poeta do mundo...Poeta da palavra física...Poeta da metafísica musculada... Tão só um homem. Desde Fernando Pessoa que não se lia algo assim...o melhor poeta português vivo.
P.S.:Não é por ser madeirense (como se isso para mim fosse alguma coisa...). É por ser, somente, ser. A vida e as opiniões... mas não tou sozinho!...
Confesso que não aprecio o reportório de Liszt embora tenha de dar o braço a torcer às suas transcrições, principalmente às de Schubert, Beethoven e Wagner. Desses três não sei qual prefiro. O primeiro é o espírito humano que se demonstra de forma simples, despojada, límpida. O segundo fala ao homem e a sua interligação com a humanidade. O terceiro... bem este... eu não seria seu amigo. Detesto os pensamentos, a prepotência e o antisemitismo acérrimo, mas a sua música... leva o ouvinte a absorver os meandros psíquicos das personagens representadas. As óperas wagnerianas são verdadeiros tratados da condição humana... a consequente variação entre o bem e o mal... Liszt, nas referidas transcrições, reproduz a essência de cada um deles introduzindo subtis ormanentos da sua grande virtuosidade pianística.
Dos Génesis à World Music... Um Senhor!!! (com sotaque à nortanho)
Poucos conseguem tornar a música num elemento natural. Este homem consegue. Principalmente na fase Wold Music. Recomendo igualmente o catálogo discográfico da sua editora REAL WORLD.
[...] Falta-me a ciência inspiradora ou a inspiração científica de Pedro, sim...o Gabriel. [...]
Pescadores a descarregar peixe espada preto (próximo da baía do Funchal), antes de 1934.
Odores de àgua salgada e de peixe que estiveram presentes na minha infância e juventude... marcas da profissão dos meus ancestrais. Digo-vos, um trabalho de cão.
Quem anda ao mar não tem dia nem tem hora (Quadrilha)
Chego agora aos campos e espaçosos palácios da memória onde se encontram os tesouros das inumeráveis imagens de toda espécie de coisas introduzidas pelas percepções; onde estão também depositados todos os produtos do nosso pensamento, obtidos através da ampliação, redução ou qualquer outra alteração das percepções dos sentidos, e tudo aquilo que nos foi poupado e posto à parte ou que o esquecimento ainda não absorveu e sepultou.
Eis um excerto do segundo andamento da 7ª sinfonia de A. Bruckner, dirigida pelo maestro Abbado. Ainda não me esqueci da versão do mago Celibidache (mais lenta e transparente), mas recomendo esta pelo seu lirismo à flor da pele.
Meu amigos... Eu já voei ao som desta obra... sim, voei! Acordei e pensei que tinha superado o sofrimento. Levantei-me e abri as portadas da janela do meu quarto... olhei por cima da cidade e vi que o meu nirvana não modificou a sua cadência... os transeuntes desconexos subiam as ruas carregados de sacos pensativos... o sofrimento voltou... só verdadeiramente o conseguirei ultrapassar quando, num movimento colectivo, conseguirmos atingir o corte com a vida anterior e assim poderemos nos elevar até à morada da felicidade... Utopias... eu sei. Até lá, não me resigno! Procurarei uma ínfima parte da minha profecia nos sons ciclicos das sinfonias de Bruckner. Até à eternidade...